Bilinguismo

Fala-se muito sobre educação bilíngue no Brasil, mas na maioria dos colégios ditos bilíngues se ensinam três idiomas, o nativo, o inglês e o espanhol. E até poucos anos atrás também se ensinava o francês.
Da maneira que são ensinados os idiomas no nosso país, na realidade se ensina uma salada de palavras associadas a diversas imagens que se superpõem entre si. Vou explicar, utilizando uma metáfora de comparação do cérebro de nossos estudantes com computadores.
Os computadores foram projetados à nossa imagem e semelhança, como instrumentos binários de processamento de informações, ou seja, similares a nós. Pouco a pouco a IA (inteligência artificial) vai aprendendo a combinar e associar as informações obtidas de uma maneira lógica e funcional, ou seja, exercer o raciocínio.
Quando ensinamos idiomas devemos entender que estamos ensinando imagens associadas a palavras e sons. Caso ensinemos em português uma imagem associada a uma palavra e a um som, sem utilizar o raciocínio, quando ensinemos uma palavra em outro idioma que se refira à mesma imagem, mas com outro som, estaremos ocupando muita memória RAM (processamento de informações), no caso dos seres humanos (capacidade de raciocínio).
Caso tenhamos lido ou consultado dicionários de português, espanhol e inglês na nossa vida acadêmica, temos observado a enorme quantidade de palavras que existem nas três línguas, muitas vezes exatamente iguais em sua escrita como no seu significado, outras muitas que permitem serem reconhecidas na escrita e que somente diferem em sua pronuncia, assim como várias que por simples dedução podemos reconhecer.
Nos programas de estudo nas escolas atuais, pelo menos nas que conheço os programas de estudo de português, espanhol e inglês são compartimentos estancos. Não se comunicam entre si, é como se nossos estudantes tivessem que processar o português numa linguagem Java, o espanhol na linguagem C e o inglês na linguagem Python. Ainda no caso que se utilizasse a mesma linguagem, os programas de ensino tratam os idiomas como se fossem coisas estranhas entre si, quando na realidade são complementares. Imaginem aprender física sem saber matemática, ou que estes programas não fossem complementários, seria um desastre.
Caso tivéssemos que armazenar informações de gramática de três idiomas diferentes, teríamos que ocupar muito espaço de memória residente assim como da memória RAM. Como isto é possível? Se o conceito de adjetivo ou advérbio estiver bem explicado em qualquer um dos três idiomas que o aluno está aprendendo, quando chegue o momento de aprender a mesma palavra ou conceito em outro idioma é somente adicionar uma palavra nova a imagem já arquivada, mas se essa palavra ou conceito não está corretamente arquivado o aluno terá que abrir uma nova pasta ou arquivo para guardar essa nova informação.
Quando um programa de estudo de português, espanhol e inglês numa escola seja planejado e estruturado como disciplinas interligadas, uma estará ajudando à outra e serão necessárias menos horas de estudo. Os conceitos básicos da gramática seria um tipo de aula, a fonética outra, leitura e vocabulário outra. O único problema é que seriam necessários professores trilíngues, ou professores que tivessem conhecimento nas outras línguas num bom nível para que pudessem entrelaçar os programas corretamente.
Muito tem que ser feito e muito a ser comentado, mas honestamente acredito que somente se chegará a um verdadeiro ensino de bilinguismo através de um caminho que contemple senão todas, algumas das ideias aqui esboçadas.

Boa semana

2 Comments

  1. Caro professor Ricardo, suas colocações deixam bem claro o problema para se aprender idiomas na escola, correta e eficientemente. Valeria a pena levar tão importante assunto ao conhecimento do Ministério da Educação. No meu tempo ainda tínhamos o Latim antiga língua indo-europeia que foi a língua oficial de Portugal até 1296, quando foi substituído pelo português, mas poucos nas escolas sabem disso. Naquela época não se falava e escrevia tão errado como vemos atualmente. Forte abraço meu professor.

    1. Meu caro amigo. Você nem imagina a falta de capacidade leitora e de escrita de nossa população. Em 1948 Orwel ecreveu o livro 1984 onde falava da Velhalíngua e da Novalíngua. A Novalíngua destruia a Velhalíngua eliminando sinônimos e antônimos das palavras, sintetizando o máximo possível. Os gramáticos se vangloriavam de destruir muitas palavras por dia. É o que estamos vendo nos nossos dias. Acredite ou não Orwell já vislumbrava em 1948 o que ia acontecer no mundo atual. Um grande abraço]

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