Onde ficou o significado de ensinar?

Pelo pouco que eu sei, ensinar significa transmitir o que se sabe. E como a responsabilidade de que a mensagem seja compreendida é de quem a emite, é de fundamental importância para que o ensino seja efetivo a comprobação da compreensão da mensagem pelo receptor, ou seja o aprendiz.

                   É muito fácil preparar uma aula quando se sabe do que se está falando e programar as perguntas que vamos receber e as respostas que vamos dar. O problema aparece em duas situações, a primeira quando não há perguntas para responder (por falta de interesse ou curiosidade do aprendiz) e a segunda quando são feitas perguntas diferentes daquelas que nós assumimos que iriam ser feitas.

                   Se numa aula não recebemos perguntas do tipo: Por que é assim? Sempre é desse jeito? E outras do tipo significa que não conseguimos despertar a curiosidade ou interesse dos ouvintes. No caso que nossa aula seja de gramática e estivéssemos explicando a substantivação de um adjetivo ou advérbio, estamos partindo do suposto que o aprendiz já tem o conhecimento do que é uma substantivação. O que acontece normalmente é que o aluno pode perguntar: Professor, o que é substantivação de um adjetivo? Ou pior ainda. Professor, como funciona um advérbio? Caso sejam feitas perguntas estamos no caminho certo, porque nos permite redirecionar nossa aula para as reais necessidades dos alunos. As perguntas são um indicativo que há uma atividade de compreensão do que está sendo ensinado. Caso não existam estamos perante uma situação de falta de interesse ou de memorização dos conteúdos sem intenção de compreendê-los.

                   Caso você seja um pedagogo ou coordenador observe as aulas de seus professores. Caso eles completem o quadro com fórmulas, informações, datas sem que existam debates ou intercambio de perguntas com explicações, provavelmente nas provas somente serão cobradas as informações postadas no quadro ou nos livros didáticos, sem que exista uma verdadeira cobrança da interligação dos conhecimentos através do raciocínio.

                   Porque ensinar é isso, fazer que o aluno raciocine, ou seja que seja capaz de relacionar o que está sendo explicado (ensinado) com conhecimentos anteriores ou complementares. Caso seja uma aula de história sobre a Revolução Francesa, fazer o aluno perceber a importância de Napoleão não só como um conquistador, mas como alterou a geografia política da Europa, como impôs o francês como idioma internacional, ou como influencia a legislação do mundo ocidental até hoje através do seu código civil.

                   Ensinar é muito mais do que dar aulas, ou colocar conhecimentos num quadro negro. É descobrir as necessidades dos seus alunos e ser capaz de fazer que eles compreendam que essas necessidades existem. Na maioria dos casos eles não percebem essas carências, porque ninguém nunca lhes ensinou que podem perguntar. Nosso sistema educacional evita e coíbe que o aluno faça perguntas, nos limitamos a ensinar o que está nos livros didáticos, que muitas vezes têm erros e por estarem num livro didático são ensinados como verdadeiros.

                   Antigamente ensinar era uma vocação, será que hoje é assim?

Aguardo seus comentários.

6 Comments

  1. Digníssimo professor, segundo o tema que aborda nesta crônica, entendemos a necessidade de uma formação profissional que interaja com teoria e prática, em um ensino reflexivo, baseado no processo de reflexão na ação, ou seja, um ensino cujo aprender através do fazer seja privilegiado, cuja capacidade de refletir seja estimulada através da interação professor aluno, pois como muito bem finaliza a crônica, ensinar é muito mais do que dar aulas. Forte abraço, Mesquita.

    1. Caro amigo: Vivemos na época do fast-food até na educação. Ainda existem pessoas que gostam de degustar a boa comida, assim como
      pessoas que em lugar da fast-lixo educação, apreciam o aspecto intelectual do bom ensino. Graças a Deus que ainda caminham por
      este mundo alguns dinossauros da educação. Antigamente quando alguém tinha um diploma de doutorado já passava dos cinquenta, porque
      esse diploma implicava além do conhecimento a experiência obtida no exercício da sua profissão. Hoje conheço alguns doutores que com
      menos de trinta já apresentam essa documentação.
      Um grande abraço. Ricardo

  2. Belíssima e pertinente reflexão. A nobilíssima arte de ensinar, nos tempos presentes, está a carecer da aplicação desses pertinentes conceitos. Mal se decora, nada se raciocina. É a era do fast-food educacional, fábrica de indigentes intelectuais. Mas ainda temos guerreiros, não é, Ricardo? Parabéns e abraços!!!!!

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